onde foi que te perdi, meu armadillo, foi no dia que te abri minha pele e pedi que cavasse um buraco no meio das costelas? voce disse que meu osso era muito duro, que nem suas garras cavadeiras te abririam pra ver o outro lado. eu me irritei e repeti o desaforo de sua casca. lembro do armadillo com ternura, de quando ele ainda nao tinha medo das minhas vontades e deitava com a barriga virada pro sol (pros meus olhos) e eu a coçava, tao sensível e frágil e rara. apertava-a entre o polegar e as palmas com cuidado e tiroleava sonhos de amor e casamento, e em seguida a gente dormia. dia seguinte, a claridade se impunha e nos juntávamos na sacada do apartamento pra beber sucos coloridos e sementes, e contar as cabeças humanas transeuntes dos andares mais baixos. recordo do carinho e das horas perdidas na rede. "rede é coisa de fuinha", afirmou numa tarde que ele tirou pra fumar cachimbo e, de frente à moldura na parede, me virou de subto a fuça e perguntou quem era o chacal no espelho. hoje o armadillo bate pé que eu o hipopotizei, que cantarolei segredos atraves de suas fossas enquanto ele ainda desacordado, falava. confesso: à noitinha eu lero-leroava escondida com seus olhos cerrados, afinal era meu o armadillo exótico que dorme e fala! anteontem uma noticia no jornal contava o caso de um americano que atirou num armadillo, a munição ricocheteou e a estória terminou trágica no hospital. matuto das vezes no fim que atirei flechas em meu armadillo, de sua barriga murchando de cólica e das despedidas que eram assim: -quero te ver daqui quinze dias. contados. os olhos se piscavam sorriso de gato e tava selada a data. entao o armadillo limpava suas unhas afiadas, e se cavava um buraco no quintal de casa que só ele cabia. e eu, perguntava, mas essa hora ele já estava longe, no escuro fundo da cova, e até recado de sombra, que é escura também, eu já tentei mandar. sem linha. foi nesse sai-e-entra de toca que o flamimgo decidiu levantar o rosado das penas, estirando nua sua pele, "cave aqui".
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ta tun
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