segunda-feira, 23 de maio de 2016

merengue

Qual é a melhor receita de merengue do mundo? Um sonho ruim a acordou na madrugada. Se lembrava como se fossem vivos - o monstro e o medo que a comeram pelas bordas da pele, mastigando-a lenta até o caroço. Só ficou o talo. Quando tinha menos idade, cinco ou seis anos, sua mãe abria a porta do quarto e fazia uma prece e uma bença. Essa menina nao é coisa de Deus, dizia, entao fez que deu e pra chamar cristo com toda a força que ela tinha, colocou de Maranata o nome da menina. Agora empurrava a porta e gritava Maranata! Maranata! pra se lembrar de evocar o criador, cuja imagem faltava à sua própria filha. E nessa luta, nesse duelo de um e batalha de uma só Rainha, a criança cresceu feito tormenta. Agitada, violenta e difusa. No meio da noite, acordou adulta a menina. Os monstros e medos da mãe há 20 anos rasgavam pelas suas orelhas. Violentavam sua pele (sua casca) de dedos e crimes inventados, e a castigavam seu cerne. A melhor receita do mundo começa pelo tempêro. Despeje um dente de alho com casca em uma compota e a cachoalhe com força repetidas vezes. Repita este passo até que o alho-menina esteje nu. Em seguida, bata palmas. 

sábado, 14 de maio de 2016

despedida de castro

te vejo escondida na fresta da porta cada vez que ela se abre; e te vejo tambem misturada à prata do espelho do banheiro de minha casa. te vejo camuflada de sujeira nas ranhuras do chao do quarto e entre a pedra rompida da banheira. voce nunca veio visitar minha casa, mas percebo ate hoje, me rodeando, seus olhos e atencao esquivas, fugidos do encontro com os meus olhos ha uns meses atras.
voce é um bicho. é estranha.
sabe aquela liçao das aulas de ciencias que o professor ensinou a cadeia natural? a relacao de predador e presa? o lobo encosta o dorso ao chao, os seus olhos afiados na pobre ovelha, "mé" "mé", ela berra despreocupada, o predador move uma pata por vez, seu coracao tambem desacelera para nao fazer barulho, "mé" "mé", a ovelha se aproxima de uma sombra e desce a cabeça para comer um pouco de graminea, o lobo estira um pouco mais as pernas e (...). em casa, novamente noto seus olhos afiados atrás das paredes, vidros, toda e qualquer minuscula brecha, grudados em mim como o imã de maça em minha geladeira. voce nunca veio visitar, nao conhece minha cozinha. voce é um bicho, é estranha.
ha uns meses atras, ultima vez que nos vimos, te contei que eu nao era uma ovelha. nunca fui. acho que tivemos papéis trocados, o diretor deve ter trocado, com certeza, e embaralhou nossa cadeia natural. mas eu lembro de lhe dar o bicho que voce queria, "mé" "mé", devo ter berrado algumas vezes, mas voce nao é um lobo, e nem boa atriz. nunca foi. é um bicho estranho que me observa e me marca e mantém distancia. de sua varanda.