segunda-feira, 10 de agosto de 2009

HGE

Esperava carnificina. Esperava ver corpos multifacelados, baleados, atingidos cruelmente por outros seres humanos. E, em todo o caminho, atormentava já minha visão com o vermelho cremoso que ela tanto viria em seguida. As poças rubras espalhadas ao chão e acima das macas, o vermelho que confundia-se à cera do ouvido de um certo rapaz, ao meu lado. Doutra instância, um senhorzinho escondia sua dor na dormência provocada pela máquina, forçosa a fazer-lhe respirar. E um magrelo chegava enlameado com um lençol - o sangue servia-lhe de grude à pele. Eram parte de um multirão de corpos retirados de suas rotinas significantes pelo golpe maior do desprazer. Atropelos, movimentações vingativas, pequenos metais sem dono. Aguardava ouvir muita raiva e dor e indignação e me surpreendi. Naquele ali, as pessoas lutavam pela vida. Pela chance de respirarem sozinhas, mais uma vez. Por uma segunda vez. E foi tudo tão lindo.

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