quarta-feira, 12 de agosto de 2009

pouco rara.

Tenho medo de que o que sinto seja início de alguma coisa mais rara, desabafava Jacinto a si mesmo, em seus longos períodos de ociosidade. Já não era mais o barulho dos ventos ou os misteriosos sons madeiris, pontualmente à meia-noite, que o incomodavam. Sua atenção concentrava-se agora em si mesmo, em seu corpo. Há algum tempo, Jascinto vinha sentindo mais calafrios e dores no peito. São gases, surpreendia-se, acatando secretamente os conselhos de sua agora ausente mãe. As estranhesas, porém, não se atinham somente a seu coração e vértebra. Seu estômago também começara a apresentar resmungos, talvez pela má alimentação de Jacinto, talvez pela falta de cuidados deste com seu corpo em últimos tempos. Tudo era motivo para neurose. Uma pequena dor, uma grande dor. Uma sola de pé mais calejada, juntas menos elásticas. Jascinto envelhecia e seu corpo acompanhava os rítmos de uma quase meia-idade, a distrair-se entre bingos e bailes antigos. Nenhum amigo próximo. Moravam todos em outros estados e países, estavam demasiadamente ocupados em suas vidas e problemas que não mais tinham tempo para fazerem ligações custosas. Eram avós, tinham família vasta. Jascinto era diferente - só labutava. Gastara todo seu tempo juvenil com a melhoria de seus negócios e agora seu corpo cobrava o desleixo com altos juros e sem prestações. Parecia demandar a colheita de uma só vez, como quando se limpa a mesa, depois de uma difícil partida de poker. Mais dores. Sentia agora o penetrar de um longo pedaço firme de palha, dilacerando-se sua nuca ao final de sua panturrilha esquerda. Seu colo resmungava, seu peito apertava-o a respiração e o pouco ar que entrava-lhe pelas narinas já não lhe era mais o suficiente. Ele sofria. Não tinha câncer, ainda era jovem, diziam-lhe médicos famosos. Mas Jacinto persistia na doença não diagnosticada. Ele sentia coisas, sentia a anormalidade das dores. Talvez Jacinto já sentia os sintomas de uma síndrome secreta. A da solidão.

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