quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Era uma vez Cora.

Cora nasceu alucinado e por causa disso o mundo não lhe cabia os olhos. Era tudo muito pouco. Sempre. Ele parecia um destes cães policiais bem treinados, sempre cheirando, sentindo, provando, buscando. Mas mais do que tudo, enxergando. Às vezes Cora encontrava trufas despintadas, enterradas bem fundo no chão. Eram raras, ele sabia, mas não eram únicas. E porque Cora sentia-se exclusivo, queria para si algo tão singular quanto. As trufas tomavam-lhe atenção e nunca por longas olhadas. Olhadas. Era assim que Cora media tempo. Num dia de sol azul, Cora encontrou um cogumelo verde-vida maciço próximo duma árvore de raízes gordas. Aproximou a visão (pois era assim que também se alimentava) e gozou insuficiencia. Foi cheirar. Espirrou uma, duas vezes, e por uma olhadela ficou cego. Juntou os cílios, desjuntou-os, e pode ver. Cheirou novamente. No terceiro espirro, Cora apertou tanto os olhos que estes perfuraram-lhe a goela, tomando lugar do coração. Enxortado, o órgão fugiu para longe, pois também como seu dono agradavam-lhe termos unitários, o apenas e o somente. Daí então, nada mais certo via Cora e seus olhos tiveram funcão aumentada - vêm os sentimentos por dentro e ali mesmo o repassam pra todo resto do corpo. Hoje é Cora, são.

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