De vez em quando a galinha enche o papo e se cansa de comer. Ela quer voltar a ser pinto ou talvez graduar-se pomba e voar por aí, lugar às vezes sujo, pousando com certeza de comida fácil. Pois a galinha, só às vezes, se cansa de ralar suas unhas na terra dura e preta, só pra amolecer o terreno. É que poucos sabem, ciscar é um ato preciso de resistência, pois assim que intensifica sua repetição, as pontas dos dedos queimam. E não pela troca de toque, mas pela proximidade com a dor que ali se esconde, aumentada em dez a cada arranhão. Bem às vezes, a galinha pensa na facilidade, tivesse ela as pegadas de falcão ou hábitos noturnos (malandros) das corujas. Ela olha suas penas e pensa que talvez um dia voe, mas seu pescoço pesado de comida leva-lhe o bico abaixo como coisas que se atraem sem outra opção. A gravidade puxa-lhe tudo, os olhos, a boca, a língua e, enfim, os pensamentos. Pra terra. Traz-lhe angústia vê-la ali parada, sem vida, como se eterna pedinte de atenção. Daí o cisco, o ciclo, o vício.
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