Pedro encurtava-se à memória de outros. Fazia-se sempre estória não contada e livro de páginas brancas. Por causa disso, era muito fácil pra qualquer um escrever no livro de Pedro. Não precisavam ter boa caligrafia ou beleza artística ou sequer boas estórias. Podiam até fazer desenhozinhos de homens-palito nas folhas que Pedro também deixava. E Pedro ia se diminuindo, se reduzindo a um versículo ambulante de um monte de coisa. Pedro achava que assim estivesse estimulando em si a pluralidade, mas, quando de volta em casa, chorava. Se doía. E buscava novamente sair para infiltrar-se como de costume daquela gente. Pedro era como calcinha suja que se usa duas vezes e por isso tem seu lado de dentro posto pra fora. Era eterna roupa íntima ao avesso e o que lhe fazia gente nunca estava no lugar certo. Perto do fim de suas páginas, Pedro resolveu voltar algumas folhas e ler sua vida. Descobriu muitos escritos de fim ainda no meio dos papéis e percebeu que ali haviam muitas obras inacabadas. Sentiu-se vazio. Como num susto, Pedro fechou rapidamente o livro e fez-se barulho em todo seu universo. Algo mudara. Pedro buscou uma caneta, mas suas mãos já não entendiam uso para aquele objeto e saíam-lhe somente linhas tortuosas e incompreensíveis. Pedro estirou-se na cama e fechou os olhos. Morreu tentando usar o lápis de sua imaginação.
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