quinta-feira, 29 de julho de 2010

focodeluz, 1a

Era dia de agosto quando Araci clicou focodeluz. Nasceu bonita, de dentro da câmara da mãe, cheia de luminescência (Araci ouviu esse termo no rádio e achou uma boniteza usá-lo). Focodeluz era cega. Parentes próximos de Araci diziam que a culpa era dela, por se fazer entender tão a certo o jargão popular de "dar a luz". Pariu uma menina cheia de si e de flores. Tão viva!, diziam eles, Tão maciça de vida, que não consegue enxergar vida na vida. É uma pena, vê-la morrer na ponta dos olhos todos os dias, continuavam a fofocaria. Araci não gostava que falassem mal da filha, era teimosa. Respondia ao lero-lero, e desejava secretamente que vissem a menina com seus olhos. Saberiam, então, que sua teimosia era feita de pedaços de amor.
Já no mês de dezembro, Araci, a recomendo de uma vizinha, resolveu levar a criança para uma dessas entidades místico-religiosas. Chamava-se Dagua, era um senhor baixo, com uma carcunda na altura das orelhas. Pegou focodeluz pela nádiga com uma grande pinça de madeira e afundou-a num líquido branco. Foi como o encontro do rio com o mar, na pororoca, focodeluz gritando bolhas, agitando os braços, seus dedos apertavam as ondas e só encontravam as próprias palmas. Foi menos de um minuto e ela virou peixe. Araci, recuperada do susto, aliviou-se, pois nunca ouvira estórias de peixes cegos. Felicitou-se, sua focodeluz enxergava!

2 comentários:

  1. como eu disse, só se pode ver com os olhos do coração. O essencial é invisível aos olhos

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  2. o principe,

    a estória de foco-de-luz ainda não acabou. faltam as outras partes que ainda irão vir. ;)

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