segunda-feira, 19 de julho de 2010

maroesia

Colocou todas as poesias numa grande tarrafa e foi assim que as trouxe para fora do mar. Prendeu-as firme na nova rede de pesca que tecera ao longo da última semana. Era impossível que agora escapassem. Na areia, arrastando-as para fora da água, viu o oceano engasgar mais de um adeus na enseada. Sua espuma chuava, as poesias choravam.
Todas as poesias nasceram no pescador. Todos os dias, ele se sentava na beira de seu corpo e estirava o bambu com isca e nylon para dentro de si. Tinha memória-viva do dia em que pescara cada uma delas (ele as amava). O anzol prendia em seu averso e puxava, rasgando sangue e dor. Era sempre assim que ele retirava as poesias pra fora. Pesca-dor.
Estava num dia triste quando resolveu trancafiar as poesias. Sabe-se somente que a última poesia que tirou de dentro foi fatal.

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